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    Seguro de Crédito

    Operações de risco sacado: o que o analista de crédito precisa ver no balanço do cliente

    TradeRisk29 de setembro de 202611 min de leitura
    Operações de risco sacado: o que o analista de crédito precisa ver no balanço do cliente

    Operações de risco sacado, também chamadas de forfait, confirming ou antecipação a fornecedores, são financiamentos em que um banco paga o fornecedor antes do vencimento e o comprador quita o banco depois, muitas vezes em prazo mais longo. Quando esse saldo fica em "fornecedores", o balanço do cliente pode mostrar menos dívida, prazo de pagamento mais longo e liquidez melhor do que a real. Antes de conceder limite e prazo, o analista precisa encontrar, medir e reclassificar esse saldo.

    O que é risco sacado e como funcionam essas operações?

    São convênios que a empresa compradora monta com um ou mais bancos. O comprador indica quais fornecedores podem antecipar os títulos que têm a receber dele. O fornecedor que adere recebe antes, com desconto. O banco passa a ser credor do comprador e recebe dele no vencimento, que pode ser mais longo do que o prazo original da compra.

    O nome explica a lógica. Sacado é quem deve o título, ou seja, o comprador. O banco entra na operação porque analisa o risco do comprador, não o do fornecedor. Por isso o convênio costuma girar em torno de empresas grandes, as empresas-âncora.

    A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) descreveu o arranjo no Ofício-Circular CVM/SNC/SEP nº 01/2016, de 18/02/2016: a compradora "contrata um banco e monta com ele um esquema de antecipação de pagamento aos seus fornecedores cadastrados". O ofício registra também o nome "securitização de contas a pagar".

    A norma contábil usa os mesmos nomes. O item 44G do Pronunciamento Técnico CPC 03 (R2), do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), trata do arranjo como acordo de financiamento de fornecedores: um ou mais financiadores se oferecem para pagar o que a empresa deve aos fornecedores, e ela paga ao financiador na mesma data em que os fornecedores recebem ou em data posterior. O mesmo item registra que esses acordos são "frequentemente chamados de acordos de 'forfait', 'confirming' ou 'risco sacado'".

    Quem vende a prazo encontra a operação de dois lados:

      • Como fornecedor do convênio. A antecipação transforma o recebível em caixa. Quanto do risco sai de fato da carteira depende do contrato com o banco, e a cláusula de regresso deve ser lida com o jurídico da empresa. O saldo que não foi antecipado continua exposto ao comprador.
      • Como analista do cliente. Se o cliente PJ usa risco sacado com os fornecedores dele, parte do que aparece como "fornecedores" no balanço pode ser dívida com banco. É esse lado que decide limite e prazo, e é o foco deste texto.

    Por que o risco sacado pode esconder dívida na conta de fornecedores?

    Porque a forma jurídica é de compra a prazo e a essência pode ser de financiamento: quem recebe no vencimento é o banco, com prazo e custo negociados pelo comprador.

    No ofício de 2016, as áreas técnicas da CVM resumiram o efeito: a compradora "não reconhece um passivo oneroso junto ao Banco, mas o passivo de funcionamento 'fornecedores'". O entendimento das áreas técnicas foi de que, no cenário descrito, houve financiamento da compra por instituição bancária e o passivo oneroso deve ser reconhecido como tal, com os juros apropriados no resultado. O texto também aponta o incentivo: escapar de covenants contratuais, como índices de cobertura de juros ou de endividamento oneroso.

    O IFRS Interpretations Committee, órgão interpretativo da IFRS Foundation, tratou do tema na decisão de agenda de dezembro de 2020 sobre reverse factoring, sem concluir que o saldo é sempre dívida: a classificação depende de julgamento, com critérios objetivos. Um passivo só deve ser apresentado como fornecedor quando se refere a bens ou serviços, foi faturado ou formalmente acordado com o fornecedor e faz parte do capital de giro do ciclo operacional normal. Garantias adicionais dadas ao banco e o quanto os termos diferem dos de fornecedores comuns estão entre os fatores que o comitê cita para avaliar se o saldo deve aparecer separado.

    Quando esse julgamento sai favorável ao balanço, quatro leituras mudam de uma vez:

    O que o balanço mostraO que pode estar acontecendo
    Dívida financeira baixaParte da dívida com banco está em fornecedores
    Despesa financeira baixaO custo do prazo estendido está embutido no preço da compra e no estoque
    Prazo médio de pagamento longoO prazo foi comprado do banco, não negociado com o fornecedor
    Geração de caixa operacional fortePagamentos que seriam amortização de dívida aparecem como pagamento a fornecedor

    A lição para o fornecedor é direta: o balanço pode estar correto na forma e ser insuficiente para a decisão de crédito.

    O que o risco sacado faz com o prazo médio de pagamento e a liquidez?

    Estica o primeiro e pode fazer a segunda parecer melhor do que é.

    O prazo médio de pagamento (PMP) mede quantos dias o cliente leva para pagar fornecedores. Com risco sacado, o PMP pode subir sem que nenhum fornecedor tenha concedido mais prazo: o fornecedor recebeu antes, do banco, e o prazo longo é do banco. PMP alto, que costuma ser lido como poder de negociação, aqui pode ser crédito bancário de curto prazo.

    A liquidez sofre de outro jeito. A decisão do comitê interpretativo aponta dois riscos:

      • Concentração. Uma parte do passivo sai de muitos fornecedores e vai para um banco, que muitas vezes também empresta ao cliente por outras linhas. Em dificuldade, o cliente pode ter de pagar um valor alto, de uma vez, a uma só contraparte.
      • Dependência. O cliente se acostuma ao prazo estendido e os fornecedores se acostumam a antecipar. Se o banco retira o convênio, o cliente perde prazo justamente quando o crédito aperta.

    O segundo ponto atinge quem vende para esse cliente. Sem convênio, os fornecedores voltam a financiar o prazo com o próprio caixa ou encurtam as condições. Quem antecipava pelo convênio passa a carregar o título até o vencimento, e a exposição ao cliente cresce sem que nenhum pedido novo tenha sido aprovado.

    Que notas explicativas ler no balanço do cliente?

    Nos exercícios iniciados a partir de 1º/01/2024, existe uma nota específica para procurar. O International Accounting Standards Board (IASB) publicou em 25/05/2023 as alterações ao IAS 7 e ao IFRS 7 sobre supplier finance arrangements. No Brasil, o CPC as incorporou na Revisão de Pronunciamentos Técnicos nº 24, aprovada pelo CPC em 1º/12/2023. A Resolução CVM nº 197, de 26/12/2023, tornou o texto obrigatório para companhias abertas nos exercícios iniciados a partir de 1º/01/2024.

    O CPC 03 (R2), que trata da demonstração dos fluxos de caixa, passou a pedir, de forma agregada:

      • os termos e condições dos acordos, como prazos estendidos e garantias dadas;
      • o valor contábil dos passivos que fazem parte dos acordos e a rubrica do balanço em que estão;
      • quanto desse valor os fornecedores já receberam dos financiadores;
      • a faixa de vencimentos desses passivos, comparada à de fornecedores equivalentes fora do acordo;
      • as alterações nesses saldos que não passaram pelo caixa.

    O CPC 40 (R1) incluiu o acesso a essas linhas entre os fatores que a empresa pode considerar ao divulgar risco de liquidez.

    A norma não obriga a reclassificar o saldo como empréstimo, mas obriga a mostrar onde ele está. Isso basta para o ajuste. E a leitura não para nessa nota:

    Nota explicativaO que procurarSinal de atenção
    Acordos de financiamento de fornecedoresSaldo, rubrica, parcela já paga pelo banco, faixa de prazosPrazo do convênio muito acima do prazo de fornecedores comparáveis
    FornecedoresAbertura por tipo: mercado, convênio, partes relacionadasLinha "convênio" ou "risco sacado" sem explicação
    Empréstimos e financiamentosCovenants, garantias, vencimentosCovenant calculado sem o saldo do convênio
    Gestão de riscos e instrumentos financeirosRisco de liquidez, concentração por contraparteConvênio citado como fonte relevante de liquidez
    Demonstração dos fluxos de caixaOnde estão os pagamentos ao bancoCaixa operacional forte, dívida financeira estável e PMP subindo
    Relatório do auditorÊnfases e principais assuntos de auditoriaFornecedores como tema ou reapresentação de saldos

    A resolução alcança as companhias abertas. O Conselho Federal de Contabilidade levou a mesma exigência à NBC TG 03 (R3), pela Revisão NBC 22, de 07/12/2023, para exercícios iniciados a partir de 1º/01/2024. Mesmo assim, em clientes de capital fechado, que costumam ser a maior parte da carteira de quem vende a prazo, a nota pode faltar ou vir resumida. Aí a informação vem da pergunta.

    O que perguntar ao cliente antes de conceder limite?

    Perguntas objetivas, por escrito, com a resposta anexada ao dossiê do cliente:

      • A empresa tem convênio de antecipação a fornecedores, forfait ou confirming com algum banco ou plataforma?
      • Com quantas instituições, qual o limite total e quanto estava utilizado na data do último balanço e hoje?
      • Qual o prazo original das compras e qual o prazo pago ao banco no convênio?
      • Há garantias, aval dos sócios, cessão de recebíveis ou conta vinculada ligados ao convênio?
      • A linha é compromissada ou o banco pode reduzi-la ou cancelá-la a qualquer momento?
      • Em que rubrica o saldo está no balanço, e ele entra no cálculo dos covenants?
      • Como o saldo evoluiu nos últimos períodos em comparação com as compras?

    A resposta vaga também é informação: cliente que não sabe quanto deve ao banco pelo convênio tem problema de controle, não só de classificação. O balancete analítico da conta de fornecedores costuma abrir o que a demonstração resumida agrega.

    Como ajustar o endividamento do cliente na análise de crédito?

    Com uma reclassificação na planilha de análise, sem mexer no balanço do cliente.

      • Identifique o saldo. Use a nota do CPC 03 (R2) ou a resposta do cliente. Na dúvida, prefira o valor total dos passivos no convênio à parcela que o banco já pagou aos fornecedores: a parcela ainda não antecipada pode virar dívida com banco a qualquer momento, por decisão do fornecedor.
      • Mova o saldo de fornecedores para dívida financeira de curto prazo.
      • Recalcule os indicadores. Dívida líquida sobre EBITDA, dívida financeira sobre patrimônio líquido e a parcela do passivo circulante que é dívida com banco.
      • Refaça o PMP só com fornecedores fora do convênio. A diferença entre o PMP publicado e o ajustado mostra quanto do prazo veio do banco.
      • Considere o custo embutido. Se a nota informar as faixas de vencimento do convênio e dos fornecedores comparáveis, trate a diferença de dias como financiamento e inclua a despesa financeira implícita na leitura da cobertura de juros.
    IndicadorLeitura publicadaLeitura ajustada
    Dívida financeiraEmpréstimos e financiamentosEmpréstimos e financiamentos mais o saldo do convênio
    Dívida líquida / EBITDACom a dívida publicadaCom a dívida ajustada
    Prazo médio de pagamentoTodos os fornecedoresSó fornecedores fora do convênio
    Cobertura de jurosDespesa financeira publicadaInclui o custo implícito do prazo estendido
    Capital de giroFornecedores como fonte operacionalParte da fonte é crédito bancário

    Ajuste não é acusação. Muitas empresas usam risco sacado de forma legítima, para dar liquidez à própria cadeia. O objetivo é comparar clientes com o mesmo critério.

    Que sinais nas operações de risco sacado pedem revisão de limite?

    Os sinais aparecem na nota, na conversa com o cliente e na rotina de quem fornece:

      • Saldo do convênio crescendo mais rápido que as compras ou a receita. O prazo do banco pode estar financiando outra coisa.
      • PMP publicado subindo enquanto o ajustado fica parado. O prazo novo veio do banco.
      • Faixa de prazos do convênio muito acima da dos fornecedores comparáveis. O convênio deixou de ser ferramenta de liquidez da cadeia e virou linha de giro.
      • Garantias novas dadas ao banco do convênio.
      • Concentração. O banco do convênio também é o maior credor financeiro do cliente.
      • Linha reduzida ou cancelada. Pode vir do próprio cliente, do mercado ou dos fornecedores. Se a sua empresa antecipa pelo convênio e o banco passa a recusar títulos ou a reduzir o limite do comprador, trate como alerta de primeira ordem.
      • Reapresentação de saldos ou ênfase do auditor sobre fornecedores.
      • Covenant perto do limite quando recalculado com a dívida ajustada.

    Um sinal isolado pede pergunta. Dois ou mais pedem revisão: encurtar prazo, limitar a exposição por grupo econômico, pedir garantia ou monitorar com mais frequência. Esses sinais contábeis se somam aos sinais precoces de recuperação judicial no cliente B2B, que olham comportamento de pagamento e cadastro.

    Onde a proteção de recebíveis entra depois do ajuste?

    A análise ajustada define quanto a empresa aceita ficar exposta a um cliente. A proteção de recebíveis trata o que sobra quando, mesmo assim, o cliente não paga.

    Risco sacado e seguro de crédito resolvem problemas diferentes. O risco sacado é uma solução de liquidez montada pelo comprador: o fornecedor antecipa enquanto o banco mantém a linha. O seguro de crédito protege recebíveis elegíveis do fornecedor contra o não pagamento do comprador, dentro do limite aprovado para cada comprador e nas condições da apólice. A diferença entre instrumentos que dão caixa e instrumentos que protegem contra perda está detalhada em seguro de crédito vs. factoring.

    Com apólice, a seguradora faz a própria análise do comprador e define o limite que aceita. Isso não dispensa a análise do fornecedor: o ajuste mostra se o limite pedido pelo comercial é coerente com o que o cliente de fato deve, e um convênio cortado é o tipo de mudança que a política precisa capturar antes do próximo pedido.

    FAQ

    O que é risco sacado?

    É uma operação em que a empresa compradora monta um convênio com um banco para que seus fornecedores antecipem os valores a receber dela. O banco paga o fornecedor com desconto e recebe do comprador no vencimento. O nome vem do sacado, o devedor do título: o risco que o banco analisa é o do comprador.

    Risco sacado é dívida?

    Pela forma, o saldo é uma conta a pagar a fornecedor. Pela essência, pode ser financiamento bancário, e foi esse o entendimento das áreas técnicas da CVM no ofício de 2016 para os casos que descreveu. Na análise de crédito, o critério prudente é tratar o saldo como dívida financeira de curto prazo.

    Qual a diferença entre risco sacado e factoring?

    No factoring, a iniciativa é do fornecedor, que cede seus recebíveis a uma empresa de fomento. No risco sacado, a iniciativa é do comprador, que monta o convênio com o banco, e o risco analisado é o dele.

    Empresa de capital fechado precisa divulgar operações de risco sacado?

    A Resolução CVM 197 torna a divulgação obrigatória para companhias abertas, e a Revisão NBC 22 do Conselho Federal de Contabilidade levou a mesma exigência à NBC TG 03 (R3) para exercícios iniciados a partir de 1º/01/2024. Na prática, em empresas de capital fechado a nota pode faltar ou vir resumida. O caminho seguro é perguntar e pedir o balancete analítico da conta de fornecedores.

    O seguro de crédito protege a venda para um cliente que usa risco sacado?

    O seguro de crédito protege recebíveis elegíveis do fornecedor contra o não pagamento do comprador, dentro do limite que a seguradora aprovar para esse comprador e nas condições da apólice. O uso de risco sacado é um dado financeiro do comprador, relevante para a análise que a seguradora faz com critérios próprios.

    O que separa um limite bem calibrado de um limite dado sobre o balanço publicado?

    A pergunta certa no cadastro. O balanço publicado mostra quanto o cliente deve aos bancos na forma. O analista precisa saber quanto ele deve na essência e quanto do prazo dele depende de uma linha que pode ser cortada.

    Sete perguntas, uma nota explicativa e uma reclassificação na planilha cobrem boa parte do problema. O custo de não fazer aparece no dia em que o convênio acaba e os fornecedores descobrem, ao mesmo tempo, quanto estavam financiando.

    A TradeRisk atua na ligação entre a análise do cliente, a política de limite e a proteção de recebíveis, para que a decisão de crédito use o endividamento que de fato pesa sobre o caixa do comprador.

    Fontes: Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Ofício-Circular CVM/SNC/SEP nº 01/2016, de 18/02/2016, item 2, "Operações de forfait"; Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) — Revisão de Pronunciamentos Técnicos nº 24, aprovada pelo CPC em 1º/12/2023 (CPC 03 (R2), itens 44F a 44H, com a definição no item 44G; CPC 40 (R1), item B11F), tornada obrigatória para companhias abertas pela Resolução CVM nº 197, de 26/12/2023; Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Revisão NBC 22, de 07/12/2023 (DOU de 09/01/2024); International Accounting Standards Board (IASB) — Supplier Finance Arrangements (alterações ao IAS 7 e ao IFRS 7), 25/05/2023; IFRS Interpretations Committee — decisão de agenda "Supply Chain Financing Arrangements—Reverse Factoring", dezembro de 2020.

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